segunda-feira, 14 de maio de 2012

Fodas à Coelho - As oportunidades do desemprego

Caro Coelhinho,

Vi noutro dia que as tuas recentes declarações sobre o desemprego em Portugal foram mal recebidas pela população em geral, e queria neste momento difícil manifestar-te o meu apoio, pois acho que a grande maioria não entendeu o teu ponto de vista.

De facto, acho que alturas como esta são as mais propicias às mudanças e ao aparecimento de alternativas para combater as dificuldades que atravessamos. Assim, penso que tens toda a razão em querer pôr esta cambada de piegas a puxar pela cabeça e a ver as imensas portas que se estão a abrir no actual panorama nacional. Decidi inclusive dar-te uma ajudinha nisto e enumerar algumas oportunidades que no meu entender são passíveis de produzir bons resultados nos próximos tempos.

A primeira é a agiotagem, pois tendo em conta as dificuldades financeiras que muitos atravessam, penso que aqueles que puderem investir nesta área irão conseguir resultados muito positivos. Poderá ser também uma boa forma de aproximar as pessoas dos seus credores e e afastar a impessoalidade da banca, embora imagine, que vá haver alguns que talvez preferissem manter essa distância... Mas só de pensar no numero de criminosos violentos que poderiam finalmente ter uma oportunidade de colocação num emprego à sua medida, uma pessoa ganha logo um novo fôlego de esperança!

A segunda é a prostituição e esta poderá ter um grande impacto directo e indirecto na nossa economia. Para começar nunca é tarde para incentivar a mais velha profissão do mundo, e tendo em conta que a grande maioria da população também já está bem habituada a ser enrabada pelo sistema, não hão-de ser certamente mais umas fodas a fazer a diferença, certo? Para além disso, se o país virar um bordel, devemos também conseguir produzir um aumento significativo no turismo. Aliás, se tivermos em consideração o nosso custo de vida, eu cá diria que vão ser "charters" de alemães, americanos, angolanos e chineses a virem cá dar-nos mais umas palmadinhas! E de maneira a que se aproveite o investimento que tem sido feito nos últimos anos nas tecnologias, pode-se também tentar incentivar o pessoal desta área a desenvolver várias páginas de pornografia amadora e profissional, o que aumentaria a nossa exposição a nível mundial. Até se podem criar iniciativas do género "Fuck a Portuguese and make your own porn movie". E se a tudo isto ainda lhe juntarmos a quantidade de chulos que por aí iriam despontar, aposto que ficávamos rapidamente com uma taxa de desemprego extremamente reduzida!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Cortejo dos tristes

Ter uma catrafada de jovens adultos, na sua fase pós-adolescente, completamente histéricos e aos berros, alcoolizados o quanto baste, a deambular pelas ruas da cidade durante um dia inteiro, é um cenário digno de um qualquer filme de terror psicológico. Pelo menos para mim, que sou um gajo sensível a estas coisas, e com um baixo nível de tolerância para toda esta euforia desmedida.

Sim, vive-se mais uma vez o dia do cortejo de finalistas universitários, em que toda esta malta sai à rua para nos mostrar quem são as pessoas que irão construir o futuro do nosso Portugal. Eu diria que toda esta cerimónia é no mínimo dos mínimos passível de ser considerada extremamente irónica.Senão vejamos:

A grande maioria passeia-se durante este dia com as vestes e cores da sua faculdade, em carros alegóricos, tipo versão pobre do Carnaval brasileiro, entoando cânticos das suas respectivas faculdades, como se estivessem a caminho de alguma arena, em que se irão defrontar ferozmente a fim de apurar qual deles é o melhor. Os restantes passeiam o seu traje universitário e a capa com as fitas de forma a que todos saibam quem são os "senhores doutores". Bebem e berram o dia inteiro por todo o sítio em que passam, estando a maioria deles ainda a curar a ressaca da noite anterior e já na rampa de lançamento para nova borracheira de caixão à cova, enquanto que os familiares impávidos e serenos assistem a todo este belo espectáculo, como se se tratasse da coisa mais natural deste mundo.

Para quem achar que com isto eu estou a ser um bocado "careta", convém talvez relembrar-vos o contexto desta comemoração, pois ela é feita ainda em época de aulas, com o intuito de celebrar o culminar do estudo académico de uma série de estudantes, que ainda nem sequer fez os seus exames finais e como tal ainda não terminou coisa nenhuma. Convenhamos, há aqui um ligeiro contra-senso, não? E já agora, quantos deles já não terão feito 2 e 3 desfiles?

Após finalizarem isto, compreenderia perfeitamente que organizassem uma festa de arromba, em que fosse só "putas e vinho verde", como diz o bom calão nacional. Aí que bebessem, fornicassem e celebrassem até à exaustão a sua chegada ao mundo do desemprego, porque após isso, as oportunidades de o fazer convenientemente irão começar a escassear, mas até lá, bem que dispensava que andassem por aí a pavonearem-se de uma coisa que ainda não são, muito menos durante o dia, perturbando a minha calma e de mais uns quantos milhares de pessoas, e que bem que dispensam esta espécie de cenário dantesco softcore, que o cortejo acarreta consigo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Es.Col.A - O ontem, o hoje e o amanhã

Tendo em conta todos os últimos desenvolvimentos do processo de despejo do colectivo Es.Col.A, penso ser importante pararmos todos para pensar um pouco em tudo isto. Houve uma explosão de informação sobre este assunto, que se reflectiu também num maior interesse da opinião pública, perante a mobilização de solidariedade popular que se foi gerando nos últimos dias. No entanto, apesar de ser extremamente positivo sentir que há cada vez mais gente interessada neste movimento, é também importante sabermo-nos situar individualmente perante tudo isto, pois por vezes, o entusiasmo de certas causas encobre um pouco o nosso bom senso. E convém também referir, que tudo isto é dito por alguém que até ao despejo de 19 de Abril, foi acompanhando o projecto ao longe, e só desde então para cá é que se tem tentado envolver das formas que pode pelas suas causas.

O que é o Es.Col.A e como surgiu?

O nome do Es.Col.A é por si só um pouco explicativo, pois significa ESpaço COLectivo Autogestionado e a sua ideia primordial foi aproveitar as instalações de um espaço público devoluto, para ser gerido por um colectivo de pessoas de forma autónoma e independente. Tudo isto, por sua vez, partiu de um conjunto de indivíduos que partilham de um principio muito simples: um espaço público que esteja abandonado e consequentemente não esteja a ser utilizado ao serviço da população a que deveria servir, pode e deve ser reclamado por esta, para usufruto das suas actividades, caso exista esse interesse.

Partindo deste pressuposto, as pessoas que vieram inicialmente a formar este colectivo, ocuparam em Abril de 2011 a Escola Primária do Alto da Fontinha, que se encontrava devoluta à 5 anos, e os seus únicos ocasionais ocupantes eram toxicodependentes, tendo desde então passado a desenvolver uma série de iniciativas e actividades para usufruto da população local e demais interessados, libertando também a localidade deste espectro negativo que anteriormente por lá pairava.

Sendo na sua gênese um grupo de pessoas que pressupõe que a participação de cada um deve de ir conta com a sua própria disponibilidade, e que não acredita na hierarquização deste tipo de projecto, foi decidido desde o início que todas as decisões relevantes para o seu bom funcionamento seriam tomadas em Assembleia, podendo qualquer pessoa comparecer a estas e expor o seu ponto de vista ou apresentar as suas propostas.

A evolução das coisas até ao presente

Embora no inicio houvesse certamente um sentimento de alguma desconfiança quanto à seriedade do colectivo por parte dos locais, esta rapidamente se dissipou perante a abertura demonstrada pelas pessoas que iniciaram o movimento e a fácil integração dos respectivos moradores em todas as actividades, pois na realidade estas começaram desde logo a demonstrar que eram uma mais-valia para todos.

Quem não partilhou deste ponto de vista foi a Câmara Municipal do Porto, que sem grandes pudores tratou de despejar o movimento em Maio por ocupação indevida de um espaço público. Estes por sua vez, juntamente com a população contestaram esta decisão, e perante a pressão da opinião pública, devido à falta de um projecto viável para aquele espaço, a CMP lá deu um passo atrás e permitiu a reocupação da Escola por parte do colectivo, até Dezembro de 2011, por ainda estar em fase de negociação para um qualquer projecto municipal, que convém referir, até à data ninguém sabe ainda qual ele é, exigindo também a constituição de uma Associação Cultural por parte do Es.Col.A, para a formalização das questões burocráticas. Apesar de ir contra os principio que fundamentam a constituição de um colectivo autogestionado, estes preferiram dar o braço a torcer, na esperança de que a Câmara visse neste gesto um acto de boa fé e reconsiderasse a sua posição quanto a um futuro despejo, até por este provar servir os interesses da comunidade local. Posteriormente o município informou que iria proceder ao envio de um contrato de aluguer, não renovável, no valor de 30€ mensais, até ao dia 30 de Junho de 2012. Após esta data o colectivo teria que evacuar definitivamente a escola, pois supostamente irá dar-se inicio às obras para a implementação do misterioso projecto municipal. Este contrato acabou por ser recusado em Assembleia do Es.Col.A pelo facto da assinatura desse documento legitimar, após a data estabelecida, o despejo do movimento daquelas instalações, e alegando que esta decisão deveria pertencer à população local, aqueles a quem reconhece a legitimidade sobre o futuro do espaço em causa.

Tudo isto terminou nos acontecimentos dos últimos dias, com o violento despejo por parte das forças policiais e funcionários da CMP no dia 19 de Abril, a reocupação entusiasta no dia 25 de Abril das instalações da escola e novo despejo no dia seguinte.

O ponto de situação actual

Depois de todo este turbilhão de acontecimentos e emoções, há que agora parar um pouco e definir novas estratégias. Todo o mediatismo a que esteve sujeito o Es.Col.A, acabou por transformar este movimento numa causa, e embora, isto certamente traga alguma satisfação pessoal aos pioneiros do projecto, pois sentem que a sua iniciativa é capaz de reunir algum consenso e apoio junto da sociedade civil, fruto de todas as manifestações de solidariedade que se fizeram sentir nos últimos dias, e de até inspirar outros a organizarem-se e promover a criação de projectos semelhantes, a realidade é que também há que separar o trigo do joio, pois uma coisa é a causa em si, outra é o projecto, e há que saber identificar onde termina um e começa o outro. É que há vários pontos que aqui que se põe que devem ser dissociados uns dos outros e que por vezes podem não ser fáceis de identificar para quem chega de novo, motivado por toda esta agitação.

Há, neste momento, já dados suficientes para, com alguma frieza de pensamento, poder afirmar que definitivamente este projecto gerou uma série de mais-valias para a população local, e que esta reúne um consenso alargado sobre essa realidade. Não agradará certamente a todos, pois nos dias que correm é praticamente impossível agradar a "gregos e troianos", mas de um modo generalizado, é acertado afirmar que os habitantes daquela zona gostam de ali ter o Es.Col.A, estando dispostos a lutar pela manutenção do projecto na sua zona, independentemente do que venha acontecer com o espaço em si. Deste ponto de vista, há neste momento uma tentativa de encontrar alternativas que tornem possível a manutenção do Es.Col.A na Fontinha, estando para tal dependentes da disponibilidade de todos aqueles que se voluntariaram até ao momento para ali manterem as suas iniciativas, agora que foram desprovidos das instalações do espaço que ocupavam e que albergava tudo isto, e que no fundo, foi o que fundamentou o seu aparecimento. É que caso se venha a confirmar a impossibilidade do colectivo voltar a ocupar as instalações da escola do Alto da Fontinha, o projecto perde também uma parte importante da sua essência, pois deixa de estar a ocupar um espaço público devoluto e transforma-se numa iniciativa popular de apoio social, quase sem qualquer tipo de ideologia contestatária. Resumindo, mantém-se o projecto implementado, mas deixa de haver a causa associada a este.

Postas as coisas desta forma, há que também questionar até que ponto, o colectivo não deve tentar até à última fazer vingar os seus ideais, pois sem essa motivação de tentar legitimar a ocupação de um espaço público com o intuito de o entregar à sua população local para a dinamização de actividades que sirvam os interesses destes, é também provável que alguns elementos percam algum envolvimento. É necessário que todas as pessoas entendam que este grupo de pessoas, que deu inicio a tudo isto, também luta por uma causa sua, e que sem ela tudo isto perde uma parte da sua real razão de ser. É que é extremamente bonito ver que as pessoas, mesmo com uma adversidades deste género se conseguem adaptar e arranjar alternativas, mas será de facto uma coisa coerente deixar de lutar pela causa que deu inicio a todo este processo? Não estarão, as pessoas que iniciaram todo este processo, a trair em parte os seus princípios, se não continuarem a tentar provar, que de facto se deve dar este tipo de legitimidade às populações, para que estas aproveitem aquilo que as instituições públicas não conseguem aproveitar?

Como é que Es.Col.A pode ainda vir a mostrar a sua utilidade e razão de ser para validar as suas causas?

Para que de facto as causas pelas quais o Es.Col.A luta não caiam em saco roto, o que este pode fazer, é tentar continuar a mobilizar o apoio popular, para que estes demonstrem das mais variadas formas a sua crença neste tipo de alternativa social. No entanto, aqui acho que o mote deve ser mesmo o de fazer demonstrações com um impacto social positivo, demonstrando alegria, inovação e muita cooperação da parte de todas as pessoas interessadas em dar o seu apoio a estes. No meu entender, a contestação à situação vivida pelo movimento deve manter-se presente, mas esta é uma batalha que só poderá ser ganha pela via das sua real capacidade de intervenção junto da população, e pelo que estas podem acrescentar à nossa sociedade. Não se deve desprezar o cariz revolucionário de toda esta luta, mas penso ser errado pressupor-se que este por si só seja capaz de conquistar o que quer que seja na situação em que actualmente se encontra.

O papel que cada um de nós pode desempenhar.

Agora, temos que acima de tudo tentar perceber o papel que cada um de nos pode desempenhar no processo que se avizinha. Quem de facto se identifica com este projecto tem agora em parte um dever moral de não deixar que tudo isto caia em saco roto, não compactuando com o comportamento passivo da generalidade, pois há várias formas de cada um de nós fazer o que estiver no seu alcance para tentar inverter esta situação. Acima de tudo há que continuar a manter o projecto activo e divulgar de todas as formas possíveis as suas actividades. É preciso que o público em geral se aperceba que há pessoas de facto interessadas em que esta ideia triunfe. Colaboração, participação e disponibilidade são as mais importantes armas que podem ser postas à disposição do Es.Col.A.

No entanto, há também que saber compreender o contexto actual das coisas, e perante isso, perceber quais são de facto as coisas em concreto em que podemos ajudar a fazer a diferença. É necessário que cada um também saiba primeiro tentar integrar-se junto do núcleo duro do projecto e progressivamente ir contribuindo com as suas próprias iniciativas, visto que antes de todo este alvoroço, existia já um grupo de pessoas, que ao longo de todo este tempo foi construindo o projecto à sua imagem e tem uma melhor visão sobre as suas potencialidades e limitações. Todas as ideias que tenham por intuito contribuir para o projecto serão certamente sempre bem vindas, mas também penso que é necessário que cada um, perante a sua própria disponibilidade quais são as suas limitações. O bom senso, aqui deve ser utilizado, tendo como ponto de vista a percepção de que já há algum tempo que existe este conjunto de pessoas que já trabalha com este projecto, e que foi fazendo as coisas acontecer, sendo por isso, eles a verdadeira alma do mesmo, independentemente de estes não quererem assumir nenhum tipo de hierarquias dentro deste, por não acreditarem que esse seja um meio que possa reflectir a sua forma de estar. No entanto há, e continuará a haver membros que por factores como o carisma ou a postura que têm, fazem com que as pessoas as considerem como uma espécie de líderes emergentes, mas que ao recusarem assumir este papel, acabam por ser a aquilo que faz do Es.Col.A aquilo que ele é. Como tal, seja em Assembleias, ou em qualquer outra iniciativa deste movimento, é fundamental que o nosso sentido de responsabilidade impere, para permitir que se mantenha a coerência do projecto, e não se entre em divagações desnecessárias, de coisas que provavelmente já estão definidas há muito tempo, ou de propostas que não se enquadrem no âmbito do movimento.

A partir de agora, compete a cada um de nós decidir o que está disposto a fazer para que não se perca desnecessariamente mais uma ideia positiva e que pelo seu mérito merece perdurar como exemplo de alternativa à conjectura actual em que vivemos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Es.Col.A da Fontinha: da alegria à desilusão e da desilusão à reacção!

Antes de mais nada, gostaria de começar este artigo com um curto agradecimento ao talvez mais improvável interveniente, o sr. Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto. E quero agradecer-lhe porque simplesmente andava desligado desta coisa que sempre gostei de fazer, mas da qual andava sem grande motivação para o fazer, que dá pelo nome de escrever. Claro está que gostaria que os meus motivos para voltar a escrever fossem coisas positivas, mas à falta de algo melhor uma pessoa lá se vai arranjando com aquilo que lhe é dado.

A verdade é que não dá para estar quieto e calado, quando se observa tamanho atentado aos direitos dos cidadãos e às suas iniciativas. E se do lado do poder instituído alegam ilegalidades neste processo de ocupação da escola da Fontinha, eu do meu lado considero que compactuar com a sua condução deste processo é que é um verdadeiro crime.

Ontem, a cidade do Porto testemunhou uma verdadeira onda de solidariedade da população para com o movimento Es.Col.A, tendo certamente mais de um milhar de pessoas marchado dos Aliados até à Fontinha, onde se deu lugar à reocupação pacífica do espaço de onde este havia sido despejado no dia 19 de Abril. Quem lá esteve viveu tudo isto num ambiente de euforia e festa, repleto de sorrisos, abraços, beijos e cânticos. A alegria tomou conta do povo e o povo tomou de volta aquilo que é seu por direito e que nunca lhe deveria de ter sido retirado. Para alguns foi o seu melhor 25 de Abril até à data, para outros o melhor desde 1974, e para muitos outros o primeiro em que realmente se aperceberam do significado desta data.

Por sua vez, o dia de hoje é novamente marcado pelo sentimento de revolta devido à nova incursão da Câmara às instalações da escola da Fontinha, que fica marcada pela remoção da canalização, sanitas, lavatórios e instalação eléctrica, bem como o novo emparedamento, desta vez feita com cimento. Isto é a forma que o executivo da CMP tem de nos dizer que está disposto a ir às últimas consequências, gastando para isso o dinheiro dos contribuintes, para ir com a sua avante. Não interessa o que de positivo se faz, o que interessa é a vontade destes senhores, e ou nós nos sujeitamos à sua vontade, ou eles seja pela violência ou pela destruição farão essa sua vontade vingar.

Este tipo de comportamento a mim só me lembra uma coisa: um qualquer rufião com o seu gang a tentar intimidar a arraia miúda, relembrando-lhe constantemente que se não lhe dá o dinheiro do almoço este ser-lhe-á retirado à força. Mas estes "rufiões" esquecem-se que a paciência de todos nós é finita, e quando o "bullying" começa a proliferar, o sentimento de revolta e união também se alastra em igual proporção, dando lugar a uma vasta onda de solidariedade na luta contra o opressor.

Assim sendo, penso que a única forma de combater esta teimosia em não reconhecer aquilo que é obviamente uma boa iniciativa popular, passa por todos mostrarmos que não vamos em cantigas e que estamos determinados em levar a nossa intenção avante; que não cedemos a politicas repressivas e intimidatórias, pois somos indivíduos convictos dos nossos ideais, pois se uma boa causa, como esta, não for capaz de nos aproximar e fazer continuar a batalhar por algo em que acreditamos e que achamos ser o melhor para nós, então não sei o que fará!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Es.Col.A da Fontinha: A arte de problematizar soluções

Ontem repetiu-se mais um triste exemplo da falsa democracia que cada vez mais se vai instalando e alastrando pelo nosso cantinho de terra aqui à beira mar plantado. Eram 9:45 da manhã quando a polícia invadiu a escola da Fontinha com o intuito de despejar os seus ocupantes. E quem eram esses ocupantes? Pois bem, esses ocupantes eram moradores da zona e as pessoas que se dedicaram à criação de um projecto funcional, autogestionado, virado para os interesses da comunidade local.

Mas vamos por partes...

O movimento Es.Col.A germinou há cerca de um ano, quando um grupo de pessoas constatou que a escola da Fontinha se encontrava fechada há mais de 5 anos e apresentou uma proposta à população para a reabilitação e requalificação desse espaço de forma a poder servir os seus habitantes e todos aqueles que por bem viessem, libertando o devido local do espectro de abandono e antro de toxicodependência que entretanto se havia transformado desde o seu abandono. E se no início ainda certamente que haviam uns quantos de desconfiados quanto às verdadeiras intenções destes, estas cedo se dissiparam assim que as pessoas começaram a ver que realmente aquilo que lhes foi proposto foi exactamente o que foi posto em práctica: a criação de um espaço comunitário aberto a todos, com actividades interessantes e capazes de integrar toda a sua população. Com isto, o projecto conquistou o seu maior objectivo: o apoio e o interesse da população.

O grave problema é que vivemos num país de burocratas sanguessugas, que têm muita dificuldade em compreender o que quer que seja que saia da sua "zona de conforto". Pior ainda, estes senhores julgam que estar no poder é sinónimo de autoridade para controlar o destino de tudo e todos, ao invés de ser uma responsabilidade civil em que o principal intuito é servir a sua comunidade. E é este tipo de confusão que é muito perigoso de se fazer, pois o povo português já viveu uma ditadura há ainda relativamente poucos anos e felizmente a grande maioria definitivamente não está minimamente disposta a voltar a andar de cavalo para burro.

Visto que o projecto da Es.Col.A da Fontinha não assenta nada bem com os principio deste núcleo de burocratas a solução encontrada por estes para a resolução deste "não-problema" foi precisamente tentar problematiza-lo ao máximo com o recurso ao já mais que habitual discurso demagógico, de que se tratava de um grupo de pessoas de extrema-esquerda ou de anarquistas que na ilegalidade se apoderaram de um espaço público, porque como é óbvio, este tipo de acções não pode ser feita por cidadãos conscientes do que é a cidadania, mas apenas por meliantes, bandidos, terroristas e extremistas!

Ora bem, aqui começa uma das bases para aquilo que eu considero ser uma das grandes contradições de todo este processo, pois um espaço público fechado não tem muito de público, enquanto que aberto à comunidade local e ao público em geral já serve bem mais o seu propósito. Mas ao que parece, as gentes do poder parecem discordar deste facto, pois o seu propósito não servia adequadamente os seus interesses económico-burocráticos.

Assim sendo, ao longo de um ano, a Câmara em vez de tentar desbloquear uma solução para algo que não era um problema para ninguém além destes fundamentalistas da religião burocrática, fez aquilo que faz de melhor e andou a tentar atirar areia para os olhos da população, recorrendo ao seu já gasto e mais do que previsível discurso demagogo, para tentar acabar com o projecto sem fazer muito má figura. E isto, quem foi seguindo atentamente este processo, foi o que viu acontecer vezes sem conta, com os constantes avanços e recuos nas negociações para a resolução deste processo, sem que nunca tenha sido posto em cima da mesa a verdadeira cedência do espaço a quem o recuperou, dinamizou e devolveu a quem é o seu verdadeiro dono: a população!

O que fica na ideia e na retina, na minha singela opinião, é que um grupo de pessoas que identificou um problema, pôs mãos à obra e decidiu criar uma solução exercendo ao mais alto nível o seu direito de cidadania. Por sua vez aqueles que, pelas funções que ocupam, obrigavam à resolução do problema e negligentemente foram adiando a apresentação de soluções, ao verem a sua soberania ameaçada, decidiram por todos os meios possíveis e imaginários dificultar ao máximo o processo até chegar aos termos que ontem todos vimos. Por isso aqui fica a minha grande questão para estes burocratas: Afinal qual é vossa função? Encontrar soluções para os problemas que nos afectam ou problematizar ao máximo as soluções que, nós no meio da confusão que vocês mesmos criaram, vamos encontrando?

Para finalizar, quero apenas deixar uma palavra de apoio a todas as pessoas que estiveram, estão e estarão envolvidas no projecto Es.Col.A, pois acredito firmemente que esta situação ainda irá explodir nas mãos de quem a criou. Acima de tudo, o que se viu ontem, serviu para alertar muitas pessoas para o trabalho que todos vós têm vindo a desenvolver. O que o poder está a conseguir fazer é criar um mártir, e desse mártir poderão vir a surgir muitas coisas boas. Não desistir, acreditar, lutar, inovar e criar novos desafios, é no meu entender, a palavra de ordem do momento! E acima de tudo, resistir!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Macacada - Parte 11.11

Parece incrível meus caros mas é mesmo verdade. Após todos estes constantes alarmismos dos últimos anos, parece que ainda há seres humanos capazes de crerem que um alinhamento de números do nosso calendário é capaz de provocar o apocalipse ou então uma mudança cósmicó-espiritual.
Durante a tarde do dia de ontem comecei a ver os primeiros sinais preocupantes deste fenómeno a serem postados das mais diversas formas por várias pessoas, na mais popular rede social da actualidade e cada vez mais a razão supra-sumo pela qual muitos de nós hoje possuem um computador: o Facebook. Uns publicavam artigos apocalípticos, enquanto outros alertavam para a abertura de um importantíssimo portal cósmico para toda a humanidade. Ora, sendo eu uma pessoa até razoável, lamento informar uns quantos crentes nestas teorias de que tudo isto não passa para mim de uma valente treta. Pura verborreia!
Nada tenho contra iniciativas que visem promover a consciência colectiva dos seres humanos, seja ela através de meditações, sintonizações de corações e mentes ou de depravadas orgias. Aliás, penso que se deve inclusive incentivar tais iniciativas, especialmente se opção recair sobre esta última, mas fazê-lo sobre pretextos descabidos como este, lamento meus amigos, mas considero isto um atentado à minha inteligência!
O nosso planeta tem 4,54 mil milhões de anos, e nós enquanto Homo Sapiens estima-se que estejamos cá há cerca de 200 mil anos. A nossa civilização em que vivemos começa a classificar a "História" há cerca de 10 mil anos e actualmente há pelo menos 3 calendários em vigor: o Cristão, o Muçulmano e o Budista. Assim sendo, e para aqueles que ainda não perceberam aonde é que pretendo chegar com isto, deixem-me que vos simplifique as coisas: Acham mesmo que faz a mínima lógica essas tretas de portais e apocalipses, só porque uns números coincidem no calendário de uma das religiões em vigor? E se acreditam mesmo nisso, deixem-me que vos desaponte dizendo que este alinhamento numérico tão bonito que tanto gente hoje fez questão de exultar segue a mesma linha de raciocínio da mundialmente famosa "lógica da batata"! Porquê? Muito simples estimadíssimos amigos: hoje, ao contrário do que muitos de vocês parecem querer acreditar não foi o dia 11/11/11, mas sim o dia 11/11/2011. Fantástico não é? Afinal de contas este alinhamento numérico tem ali uma ligeira e irritante falha que talvez valesse a pena ter tido em consideração. Isto leva-me a crer que na volta agora muitos se irão dar conta de que afinal o apocalipse / portal cósmico só se irá dar daqui a 9 dias, em 20/11/2011 e para levar isto ainda mais ao cúmulo do absurdo, este irá dar-se pelas 20:11, ficando apenas a faltar definir aos crentes destas teorias no horário de que país é que tal coisa se irá verificar... Sim, porque para aqueles que não sabem o horário em Portugal é diferente do horário em Espanha, e por sua vez estes são diferentes do horário na Rússia, nos Estados Unidos, na China e em muitos outros sítios... As coisas de que um tipo se lembra, hein?

quarta-feira, 23 de março de 2011

Actualidade 1: PEC-MEN


9 meses de inactividade e o Artérias Cruzadas volta à carga no dia em que se debate na Assembleia da República o PEC IV, o qual, se for recusado se diz que irá fazer o Governo do PS liderado por José Sócrates.

Sócrates, ou o PEC-MEN, como o decidi começar a chamar a partir de agora tem que ser corrido do poder. Esta é a minha convicção, pois cada vez mais se notam as suas lacunas a nível de comunicação com o restante poder político. Este não tem um governo maioritário, mas gosta de governar e tomar decisões como se esse não fosse o caso.

Neste momento está o povo português mais do que farto de constantes cortes e congelamentos, de tal forma que se poderia pensar que na realidade somos governados por um bando de cozinheiros, talhantes e peixeiros. Além do mais, tendo em conta que se planeiam super-investimentos como o TGV e o novo aeroporto de Lisboa ainda se percebe menos como é possível andar sempre a pedir sacrifícios aos portugueses em vez de se mandar congelar estes projectos... E se ainda até se consegue entender a necessidade de um novo aeroporto, o mesmo não se pode dizer em relação ao TGV. Afinal de contas, com estas low costs, mas quem é que vai pagar 100€ ou mais para chegar a Madrid em 3h ou 4h, quando por 40€ ou 50€ se põe lá em bem menos de metade desse tempo? Mais, países como a Noruega e a Suécia, que chegam a ter 3 e 4 vezes mais a nossa extensão territorial não têm um TGV nem tão pouco têm planos para vir a ter um no futuro, portanto, pergunto-me eu, porque raio há-de um país como Portugal ter necessidade de um? Confesso que isto é das coisas que menos entendo...

Outra das coisas que convém ter em consideração é o facto de o PS ser um partido de centro-esquerda e como tal espera-se que tenha mais tacto e mais consideração por questões sociais e não fazer uma política meramente baseada na economia como é hábito dos partidos mais virados à direita. Nos últimos tempos a questão da flexibilização do mercado laboral, facilitando os despedimentos é talvez o ponto alto desta disparidade entre a realidade actual do PS e a teórica.

Posto isto espero que entendam que sim, quero ver o Sócrates e uma boa parte deste governo pela porta fora assim que possível, mas também confesso, este é um péssimo momento para o fazer.

Mais do que ver estes galos fora do poleiro, quero acima de tudo evitar que o FMI entre pelo nosso país adentro, pois se isso realmente acontecer está verdadeiramente o caldo entornado. O governo actual está longe de ser bom, principalmente tendo em conta as nossas expectativas para com este, mas o FMI é cem vezes pior! Disto não tenho a mínima dúvida. É que estes senhores ignoram tudo aquilo que não seja números. Com eles não há cá políticas sociais nem tão pouco um bocadinho que seja de preocupação com o bem estar das pessoas. Estes senhores só querem saber de resultados financeiros, tudo o resto é treta. E verdade seja dita cada vez acredito menos que estes até sejam uma boa solução para a resolução do nosso problema, pois olhando para o exemplo da Grécia, a coisa não parece nada bem. Desde que o FMI entrou lá o PIB desceu cerca de 10%!!! E pelas notícias que vêm da Irlanda, estes estão a ir pelo mesmo caminho, o que na minha óptica torna este cenário extremamente preocupante.

Outra das coisas a ter em conta é a realidade portuguesa. Somos um país pequeno e com imensas dificuldades em conseguir criar riquezas.A nossa "tábua de salvação" tem sido o turismo e esta parece realmente ser a única área realmente capaz de fazer criar receitas para Portugal. O sector industrial está cada vez mais a concentrar-se na Ásia devido aos baixos custos de produção. O sector têxtil, mais concretamente o vestuário e o calçado, são um bom exemplo disso. Em Portugal, as poucas empresas que se mantêm cá fazem-no devido à qualidade de confecção e dos materiais, mas estas são actualmente uma curta minoria. E isto, é algo que afecta bastante o nosso país.
Para ajudar a tudo isto a oposição arranjou a estratégia de tentar culpar o actual executivo governamental por toda a crise que estamos a viver e tem investido fortemente em tentar passar essa imagem, mas verdade seja dita, isso é uma grande falácia. Portugal é desde há muitos anos um país completamente dependente dos fundos europeus e o que grande parte dos anteriores governos fez foi esbanjar esses fundos. Fez-se muita coisa desde que em 1986 entramos para a União Europeia, mas não basta fazer meus caros amigos... Há que fazer bem feito, e o grande problema é que muita coisa foi extremamente mal feita, sendo que para mim, um dos maiores problemas de todos foi a falta de controlo sobre a aplicação de todo este dinheiro que entrou nosso país. Toda a gente sabe, que até à entrada deste milénio a fiscalização sempre foi muito pobre, quase que a roçar o anedótico. Este é o tipo de coisas que tem consequências a médio-longo prazo e isso é o que estamos a sentir hoje. O nosso país não é alheio à crise mundial que desde 2008 tem vindo a afectar a economia de tudo o mundo e que agravou e precipitou ainda mais a crise profunda da nossa economia. E tendo em conta o nosso historial isso precipitou ainda mais a desconfiança dos mercados internacionais nas nossas capacidades para gerir o dinheiro que recebemos, levando-nos à nossa situação actual perante a Europa.
Desde o início do seu mandato, o governo do PEC-MEN tem tomado bastantes medidas difíceis, muitas delas provocando uma grande falta de popularidade, mas no entanto necessárias. É preciso esforço para obter resultados e muitas vezes sacrifícios. Ninguém gosta de os fazer, mas que eles muitas vezes são necessários toda a gente sabe. Assim sendo, acho que também tem que haver alguma moderação em toda esta contestação, pois nem tudo é linear como gostaríamos que fosse.

No fundo, o que este texto pretende é que as pessoas simplesmente parem um bocado e reflitam sobre aquilo que se passa na realidade política nacional e tomem um bocado consciência de que há várias coisas envolvidas nesta grande equação que nos afecta e afectará nos próximos tempos. Que temos que correr com o Sócrates não há dúvidas pois tem mentido ao seu povo sobre o real estado da nossa economia e sobre as medidas que realmente são necessárias para que não percamos de vez a nossa liberdade e passemos a ser governados pelos senhores dos números europeus. Mas acima de tudo calma e pensemos bem nas consequências de empandeirar já esta trupe, pois os outros que virão a seguir vos garanto que não farão muito melhor...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Nacionalisses

Pois é, chegou ao fim o sonho da selecção nacional e de muitos portugueses neste mundial de futebol. A tristeza é generalizada em mais este falhanço, e como é normal, nestas situações há sempre que encontrar um bode expiatório. E nisto há actualmente 2 grande candidatos a esse papel: o seleccionador Carlos Queirós e o mediático Cristiano Ronaldo.

Devo dizer que uma parte de mim se sente aliviado com este afastamento do Mundial. Para começar irão silenciar-se finalmente essas horrendas cornetas importadas da África do Sul, as vuvuzelas! Espero apenas que tenha sido uma moda passageira, porque só de imaginar, que sempre que agora houver um encontro importante de futebol, seremos obrigados a suportar esse barulho infernal, até me deixa indisposto! A sério meus amigos, a grande maioria de vocês não acham que já ultrapassaram a idade de andar por aí fascinados com tudo o que aparece à frente e faz barulho? É que isso é típico do comportamento de crianças dos 2 aos 6 anos e não é preciso ser-se nenhum entendido em psicologia para estar a par deste facto...

Outra das coisas que tem bom este afastamento do campeonato do mundo é o fim de toda esta disparatada onda de nacionalismo que agora nos invade a cada 2 anos na altura dos mundiais e europeus de futebol. Nestas alturas nunca faltam bandeiras nacionais, camisolas e cachecóis. Nem as caras pintadas com as cores de Portugal faltam. Até as mulheres que passam 300 e muitos dias do ano a falar mal de futebol e lixar a cabeça aos maridos e namorados por causa da "bola", chegam a esta altura e se for preciso ainda berram mais intensamente que os homens! Anda tudo o ano inteiro a queixar-se do seu próprio país, das pessoas que o habitam e da sua mentalidade, mas basta haver uma competição futebolística de nível internacional para que toda a gente passe a ser "um português cheio de orgulho" na sua nação! Mas se depois as coisas correm mal, já somos todos novamente uma tristeza de povo e remetemo-nos rapidamente à nossa própria e típica insignificância.
Será que, tirando a selecção nacional de futebol não conseguimos encontrar de facto um outro motivo de orgulho para aclamarmos a nossa nacionalidade? Somos mesmo um povo assim tão triste que não consegue identificar com mais nada de positivo além de Figos, Ronaldos e Mourinhos?

E no meio de tudo tenho isto tenho mesmo que perguntar... Serei eu o único que se está perfeitamente a marimbar para o facto de o Cristiano Ronaldo não cantar o hino nacional antes do inicio dos jogos de Portugal? É que tipo... Não há nada melhor para discutir? Será que por obra e graça de Nossa Senhora da Aparição ele jogaria melhor se antes cantasse o hino? E será que isso teria como consequência um melhoramento nas nossas vidas pessoais?

Faço estas perguntas porque depois da derrota de ontem tudo servia para deitar mais achas para a fogueira e justificar o falhanço da selecção. Era só abrir o facebook e constatar isto no meio de todos os comentários revoltados. Confesso que a mim me revolta mais o aumento do IVA, a introdução de novas portagens que irão afastar muito do turismo galego da norte do país e a habitual falta de soluções para resolver os problemas económicos e sociais que nos assolam neste momento. Perante isto, parece-me de facto ridículo andar-me a preocupar com o facto de um puto de 25 anos não cantar o hino nacional antes de começar a dar uns chutos na bola...
Aliás, eu até acho o nosso hino um bocado para o piroso, com menção a armas e a marchar contra canhões...
Será que isso faz de mim uma pessoa com menos amor ao seu país? Talvez faça, até porque antes de me considerar português, considero-me cidadão do planeta terra. Mas isso são já outras conversas...

Voltando ao nosso tema dominante, não quero que pensem que sou algum tipo de fundamentalista anti-futebol, pois se o fizerem estão um pouco distantes da minha realidade. Sou uma pessoa que gosta acima de tudo de bons espectáculos, e no caso do desporto acho que o futebol e o basquetebol são dois desportos de excelência a nível do espectáculo que podem proporcionar. Desde os 14 anos que fui perdendo a paixão ferrenha que tinha pelo tão aclamado desporto rei, mas continuo a ser capaz de apreciar ocasionalmente um bom jogo. Acho inclusivamente que é saudável que se vibre e se sinta um pouco dessa paixão pelo jogo, que se discuta um pouco e se formulem opiniões. No entanto o razoável tem um limite e esse começa quando se começa por tornar em ícone nacional e mundial um tipo, que a nível pessoal e intelectual deixa muito a desejar. Esse limite ultrapassa ainda mais a barreira do racional quando se lhe tenta imputar a responsabilidade de uma boa campanha desportiva da selecção portuguesa e se começam a procurar todo o tipo de falhas para se lhe apontar após o fracasso. É o velho hábito de se arranjar os tão badalados bodes expiatórios, do qual o povo português se mostra, a cada ano que passa, um verdadeiro "expert"!

Resta no meio disto tudo, um pouco da consolação de pelo menos desta vez não termos sido os que fizemos a figurinha mais triste. Podemos olhar para o caso dos franceses, que até o seleccionador nacional , presidente da federação francesa de futebol e alguns dos seus jogadores foram chamados ao parlamento para prestar esclarecimentos sobre o sucedido neste mundial. Chega mesmo a ser caso para um tipo pensar: "Fodasse, mas isto anda tudo chóné, ou sou só eu que devo ter sido importado directamente de Marte?" É que se isto não roça o ridículo para mais ninguém, então alguém que me dê o contacto da nave mãe para eu requisitar a recolha e ser devolvido directamente à procedência...

Ah, e para terminar, antes que os mais conservadores se comecem a perguntar, informo desde já que sim, o autor deste texto está consciente de que termo "nacionalisses" não consta do dicionário de língua portuguesa. Mas serve bem o seu propósito.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

The Unworthy

Prayers and requests
Hopes and lies
It's all mixed up
Till the blood arrives
People are confused
In their tiny lifes
Nothing really matters
They're a bunch of flies

Just get them out of here
Put them far from sight
They're mindless and unclear
Or maybe just too high

Sometimes it gets so heavy
That you stop to wonder
Is the world's whole weight
Layin' upon my back?
Cause when I speak you're deaf
But when I don't I'm crazy
And it never ceases
I'll take the blame again... and again

Dirty are the ways
Of you and your kind
Unworthy beings
Shall not waste my time
Going all alone
On a selfish path
Your acts just proved
You're a simple rat

Just get them out of here
Put them far from sight
They're mindless and unclear
Or maybe just too high

Sometimes it gets so heavy
That you stop to wonder
'Is the world's whole weight
Layin' upon my back?'
Cause when I speak you're deaf
But when I don't I'm crazy
And it never ceases
I'll take the blame again...

It's too late to stop it
I'm not comming back
You just crossed the line
You just fucked it up
Heading out my way
Leaving you behind
It's the end my dear
It's your final stop, wave goodbye

terça-feira, 25 de maio de 2010

Weary

Countless nights of sleepless darkness
Pretending on and on again
My switch is slowly turning off,
Hopelessly relentlessly
Ensared by the smoke curtain
And all this fucking uncertainty
Breaks up my will to carry on
Feeling weary, broke and torn apart

You are so close but yet so distant
And everytime... the same punishment
Just save your light for a little while
It's just too bright for these wounded eyes

Your tenderness can no longer calm,
this hellraising crushing inner war
My former structure that you knew
Well...it has simply collpsed
I know that you came in peace,
Thing is... I wanted you for love
Now this blasted night holds nothing
Except the same cold feary darkness

You are so close but yet so distant
And everytime... the same punishment
Just save your light for a little while
It's just too bright for these wounded eyes

Down the ground
The dust arises
I just keep on coming
Back to the start
A timeless loop
I can't avoid
Keeps on spinning
Round and round
Fuck, it's a mess
A nervous collapse
Now paranoic
Is my middle name
It takes my breath
The surrounding air
Just get me out
Of this dead end alley

But keep in mind
That black is black
And it will be
Eternally

I know that I just keep on asking
On what am I supposed to do
With all this filling sickning world of nothingness
That I just can't seem to get through
But if you have a prescription
Kindly take away this bittnerss
That's growing deeper within
And uncontrollably thicker

Burning Desire (unfinished)

I was on my way to another night out
And from out of nowhere you just dropped in there
I felt such pump that I almost shout
You're too much and driving me to despair

I'll climb the trees just to reach the sky
Bring you the stars if it makes you smile
If I had wings I'd take you out to fly
To hold you tight just for a while

You look so sweet
A heavenly gift
I'll want you badly
If you take me gladly

So c'mon honey... don't push me away

I wanna be the men to own your heart
And keep you safe from any harm
I'll make you sweat, I'll make you start
I'll be the prey in which you swarm

You look so sweet
A heavenly gift
I'll want you badly
If you take me gladly
You are my light
So pure and bright
A precious jewel
My perfect fuel

So c'mon honey... you can't push me away

My passionate heart for you will beat
And our souls will together blend
Your tender touch will bring me heat
And I'll give you love to make you ascend

You look so sweet
A heavenly gift
I'll want you badly
If you take me gladly
You are my light
So pure and bright
A precious jewel
My perfect fuel

You are the desire
That turns me on... FIRE

domingo, 7 de março de 2010

Estado de sítio "bloggistico"

Informam-se os parcos e esporádicos visitantes deste espaço, que os últimos conteúdos do blog são um reflexo derivado do adensamento da escuridão circundante no universo mental do vosso narrador e a consequente falta de sentido humor do mesmo.
Aguardam-se por melhores dias e fontes de inspiração menos negras...

Unrelated Alien

We speak a different type of language
Unable to find where my kind wanders
I found myself stuck here with yours
Trapped in this unamusing circus

Enough is enough now
Corruptive nauseous breed

Words growing into sentences
Sentences growing into context
Contexts that make stories
Some good and others bad

Enough is enough now
Nauseous corruptive breed

So breath a little now
And regain your breath
What's so important here
For you to get?
There's just too many ways
For all known deceiveness
To find it's track back
Track back on you

Silence growing into darkness
And darkness growing into you
Around the corner comes solitude
And then growing bits of madness

Frustrated as it gets
The end remains the same

quinta-feira, 4 de março de 2010

(Restless) Place of Slumber

Turn on the hot shower
And let the water flows
Washing away the bitterness
While crying your heart out
Drown all the fears in it
And warmth in it's confort
Let it clean the soul
At least for a while

Stitch up the wound
That's bleeding out you
They will become scars
And shall be the only medals
Your soul will ever ever
Carry on to your graveyard
But they'll have to heal
Or they'll take you down first

Still hoping for a light bright enough to shine in this room of darkness
Only lightned by the candles that the fuzzy storm keeps blowing out

These dreadful ghouls still wonder the outside world
We're unable to communicate for they haunt me
Guess I just got caught shivering again
Chained to this old familiar paranoic loop

Still waiting for that brighter light to come shining from high and upon
And bring faith and life back to this darkened restless place of slumber

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mascotes modernizadas!


Estamos em Novembro, e como tal, a época natalícia e o final de 2009 aproximam-se a velocidade de cruzeiro e como é normal nesta altura, a industria da publicidade já começou a fervilhar, e deixem-me que vos diga que do que vi até agora a coisa este ano promete mesmo.
Lembram-se da Leopoldina dos inícios, aquela avestruz meia desengonçada, que voava por mundos de fantasia e brinquedos? Pois é, ela modernizou-se definitivamente! Em 2008 aproveitou para tirar uns cursos de sobrevivência e no final desse ano apareceu-nos como sendo uma espécie Indiana Jones. No entanto, este ano decidiu ir ainda mais longe, e depois de um treino intensivo com os Rangers, eis que agora ela nos aparece como um misto híbrido de Lara Croft com o Sonic, saltando plataformas e provocando explosões, tudo isto em prol do mundo do imaginário, claro está!
A Popota por seu turno não lhe quis ficar atrás e perder protagonismo, como tal, andou o ano inteiro a aprender a dançar Kizomba e Kuduro, depois de no ano passado ter andado mais dedicada à área do Hip-Hop.
Só espero agora é que o Intermarché não siga esta tendência, ou então ainda nos arriscamos a ter os 3 Mosqueteiros vestidos de drag queen a fazer "table-dances" nos nossos ecrãs televisivos em horário nobre...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

At the factory

"So, is everything alright at the factory?"
It's the wake up call from the lipstick painted girl
While growing a green tree on the wall
A glimmer hope for the ones dying out there

There's focus, attention and a flowing madness
It's the turn on of expression

Burn the hash into ash
Dwell it with the Green Walls on the Garcia Couple
Watch it swirl and consume
You're in it now

Swing it around and let yourself go with this flow
It's the turn on of expression

We're in an ongoing tale
Where the organic shape of pink
Grows finger painted
On a old story-telling blank wall

There's new shapes and colours surrounding us
It's the turn on of expression

Sitting and wandering around here
I feel my leopard hat growing too big for my head
Maybe it has grown bigger
With the turn on of expression

Allow me to tell you that the french looking girl
Gave birth to an eye-staring penguin in flames
Some say he's overjoyed
Other say he's in pain

Anyway, this has no finish, it's a neverending story
You got it right
Cause it's the turn on of expression

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Path To Damnation

One after another
They come and gather around me
Looking, staring
I remain laid down

They approach me and start making a bunch of questions
I just want silence
No sounds, no voices
Just plain silence

They ask me if I'm ok
And attempt to sooth me by telling me everything will be alright
How can they be so sure?
How can they say such thing?
These days nothing is ok or fine
These days there's a endless darkness
All the lights have disappeared

They ask me how long have I been here
I've been here forever I think
I've been here for as long as I can remember

They ask me how am I feeling
Well, I could tell them I'm feeling empty
But nowadays I'm not even sure if I feel anything at all
I remain quiet
I pretend they're not here

They ask me what's the matter, what's wrong?
Everything's wrong, but nothing matters any longer

They ask me what happened, why am I like this
Nothing really happened
Nothing happens
There's an absence of happenings
I'm just dead

They tell me to stop talking nonsense
They tell me I'm lucky to be alive
They tell me I should be thankful and celebrating
I don't feel lucky
I don't feel alive
And I can't think of a single reason to celebrate

They insist on keep making me company
While I just want to be left alone
I'm bored by them
They keep trying to cheer me up
But all they do is annoy me

They keep trying to make me talk
Trying to communicate with me
But they can't
They don't speak my language
And I no longer speak theirs
They seem confused by it
And they don't get my point
Of course not
I knew they wouldn't

They tell me tomorrow will be a new day
Things will be different
That I gotta keep my hopes up
That I need to have faith
I tell them that tomorrow will be exactly the same as today
Nothing changes in a day
Nothing's changed until now
Why should tomorrow be any different from today?
Why should it be different from any other day?
Everything's becoming meaningless and pointless
Vague and blur
Everything's distant these days
I tell them that tomorrow I'll be as dead as I am today
And I will

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A ciência em Portugal



Pois é, o tio Armando esteve de férias e como tal o blogue esteve parado, mas regozijem-se ou amaldiçoem-se os parcos leitores deste espaço porque o interregno das postas de pescada que aqui publico terminou.

Suponho que a maioria de vós nestes últimos dias já se tenha deparado com a nova campanha nacional de promoção à ciência e à tecnologia, seja através dos posters outdoor espalhados um pouco por todo o país ou através da sua campanha televisiva. Pois eu vi-a muito recentemente e gostaria de partilhar aqui o que penso dela, ou pelo menos da maneira como se optou por transmitir a mensagem.

Mal regressei de férias deparei-me com um desses cartazes afixado num dos painéis publicitários do metro, precisamente aquele que está na foto que acompanha este texto. Peço que se percam uns momentos a olhar bem para este anuncio e se reflicta um pouco sobre ele. Ele mostra uma tablete de comprimidos acompanhado da frase "A ciência faz bem". Agora pergunto, serei eu o único a achar que a correlação entre a frase e a imagem é algo de aberrante? É que por norma eu associo os comprimidos a medicamentos e por sua vez estes a doenças. Claro que podem sempre advogar que os medicamentos derivam da ciência e servem para tratar os males de que sofremos, mas a realidade é que eles ao tratarem uma coisa estão a fazer mal a outra. E como se não bastasse, se analisarmos bem as coisas a grande maioria dos males da actualidade devem-se aos avanços da ciência e da tecnologia. Desde o stress a que somos sujeitos diariamente até uma boa parte das doenças que actualmente nos afligem, as suas causas têm como principais factores o estilo de vida que a nossa sociedade adoptou por estar dependente destes para sobreviver.

Dizerem-me que algo que evita males maiores,como é o caso dos medicamentos, não é no meu ponto de vista algo que necessariamente faça bem. Eu pelo menos não associo as coisas dessa forma. Pode ter a sua utilidade e acarretar benefícios, mas fazer passar a mensagem de que é a única solução para as coisas, como me parece ser o intuito desta campanha, não me parece nem algo correcto nem tão pouco inteligente.

Perceba-se que não tenciono fazer disto uma espécie qualquer de manifesto anti-ciência e anti-tecnologia, bem longe disso, mas antes que se pense um pouco na forma como se promove estes, pois é inegável que há coisas positivas a retirar daqui, não esquecendo no entanto que estes acarretam também consequências das quais é necessário que se mantenha a noção. Uma campanha como esta, de carácter nacional não pode ser promovida sem este tipo de consciência, principalmente nos dias de hoje em que os processos de alienação são mais fortes do que nunca, visto que a grande maioria das pessoas apesar de estarem cientes das problemáticas que todos estes avanços científico-tecnológicos acarretam, ou pelo menos de uma parte deles, é igualmente verdade que há cada vez mais um sentimento de impotência crescente no que diz respeito ao que cada um sente poder fazer para minimizar esses impactos. Como tal, acho que se deve esperar e exigir um pouco mais de responsabilidade e consciência na forma como se tenta passar a mensagem neste tipo de campanha publicitária.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Saber escutar

Curiosamente, na semana passada decidi introduzir neste blogue uma série de títulos de assuntos sobre os quais gostaria de escrever. O primeiro de todos era "Está alguém à escuta?". Passados 2 ou 3 dias uma amiga comentava comigo uma situação que tinha tido recentemente com um amigo seu, em que praticamente se tinham chateado porque ele sentia que a comunicação era praticamente unilateral, pois passava o tempo a ouvir as histórias dela e sentia que sempre que ia a dizer ou a contar alguma coisa que era rapidamente interrompido. Ela, a concluir a descrição da situação toda rematou com algo do género: "de facto às vezes estamos estão perdidos e centrados em nós mesmos que acabamos por nos esquecer do quão é importante também saber escutar os outros e dar-lhes a oportunidade de nos contarem também o que se passa com eles. Não é que faça isto por mal, mas às vezes estava tão eufórica e com vontade de partilhar as minhas histórias que acabava por nem o deixar contar as dele". Sorri e assenti em concordância enquanto me recordava do título para este texto. Pensei para mim mesmo que se há alturas em que o acaso nos aponta numa direcção, esta foi uma delas, e como tal decidi que este seria mesmo o próximo texto a ser escrito, embora tenha preferido alterar-lhe o título, pois cheguei à conclusão que "saber escutar" era mais apropriado para aquilo que pretendo transmitir.

O que me parece, é que cada vez mais é necessário explicar às pessoas a importância do saber escutar, porque de facto é algo que a maioria não sabe fazer. Este é um acto que necessita que cada um se saiba remeter a um "silêncio relativo" quando necessário, sendo de igual importância saber identificar em que circunstancias se o deve fazer. E a realidade é que a maior parte das pessoas não se apercebe destes factos.

Toda a gente gosta de contrapor os outros com as suas ideias e ideais, com a sua forma de estar e de encarar a realidade e de partilhar as suas vivências, mas na hora de retribuir, passando para o papel de ouvinte muitos falham. E fazem-no porque não compreendem este pressuposto de "silêncio relativo".

Quando um individuo tem um desabafo para com alguém, ou conta uma determinada situação que viveu, é importante que o receptor se inteire do seu papel, que é ser ouvinte e que para o ser, tem que deixar um pouco de lado as suas experiências e opiniões. É importante que ouça em silêncio e só vá intervindo pontualmente nos momentos que achar inteiramente necessários, caso contrário corre o risco de que o emissor perca o fio à meada ou que simplesmente se aborreça e farte, acabando por não transmitir o que gostaria. É absolutamente frustrante querer contar alguma coisa a alguém ou ter um desabafo e estar continuamente a ser interrompido por alguém que nos quer estar a dar a sua opinião sobre o que acha que temos que fazer, a tentar comparar as suas experiências com as nossas,etc. Não que ache que tal não deva acontecer, porque é importante contrapor as vivências dos outros com as nossas, mas tal só deve ser feito após a mensagem ter sido completada. É um tremendo engano julgarmos que podemos ajudar os outros ou compreender aquilo por que passaram ou viveram se não ouvirmos com atenção tudo aquilo que nos querem transmitir, pois muitas vezes o que inicialmente parece ser uma situação semelhante com algo pelo qual passamos acaba por se revelar algo completamente diferente daquilo que julgávamos ser. É errado presumir-se que sem se conhecer os antecedentes de cada um, sem perceber o que levou a determinado comportamento ou reacção, possamos dar o nosso parecer mais acertado.

Cada ser humano é como um grande livro: tem uma história, história essa que por sua vez tem capítulos e estes por sua vez têm episódios, estando todos eles interligados por um fio condutor que é o individuo. Para se compreender o que fascina e motiva, o que deprime e entristece cada um é necessário ter um pouco de conhecimento sobre a história desse. Querer tirar conclusões precipitadas quando não se conhecem os factos essenciais dos diversos episódios ou capítulos que influenciam a forma de estar e de agir de um individuo é algo que só dificulta mais o acto de compreender na sua totalidade. É como tentar compreender um enredo, conhecendo-se apenas as personagens e os desfechos das suas histórias. Saber apenas que sujeito A fez isto e aquilo a sujeito B e consequentemente sujeito C foi influenciado por isso na sua relação com sujeito D, não é o mesmo que entender quais foram as situações experiências e consequentes motivações que levaram a esses actos, tal e qual como saber que o João foi mordido por um cão, não é o mesmo que saber que este o mordeu porque antes este lhe deu um chuto. É importante que se saiba ver a grande diferença que existe aqui, pois não é com base em "resumos" e presunções que se chega a conclusões efectivas. Ter a capacidade de discernir estes factos e interiorizar que é necessário ter paciência para se perceber o porquê das coisas é a grande arma de um bom ouvinte.

Saber escutar é acima de tudo uma arte que nos permite conectar com a realidade dos outros, enriquecendo-nos a nós e libertando-os a eles. É um dom que deve ser estimado, um privilégio que tem que ser aproveitado. Doutra forma mais vale às vezes falar sozinho...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Seres normalmente normalizados

O ser normalmente normalizado é a espécie que domina a cultura ocidental, e "qui ça", o mundo. Gosta de todas as convenções tradicionais e adapta-se com razoável facilidade às circunstancias da sociedade moderna, pois considera que se trata da evolução natural das coisas. Não perde muito tempo com grandes considerações nem exaustivas reflexões sobre o que o rodeia, porque tem mais do que fazer do que estar matutar muito sobre essas coisas acerca das quais considera estarem muito para além do seu campo de intervenção.

No seu quotidiano segue as opiniões das massas e serve-se dos argumentos usados pelos meios de comunicação social ou pelos seus ícones de momento para justificar as suas posições. Utiliza recorrente os termos "noutro dia disseram-me que..." ou "ouvi dizer...", pois é mais fácil fundamentar as "suas" opiniões tendo a dos outros como antecessoras.

Tem por norma um rendimento produtivo e satisfatório para a sociedade em geral, embora seja raro superar-se no que quer que seja. Nunca, ou pelo menos quase nunca trás nada de realmente novo onde quer que esteja ou vá, mas é bom a manter as coisas na normalidade. Ou seja, não é nem nunca será um criativo, mas dá sempre um excelente técnico de manutenção.

O ser normalmente normalizado não gosta de ser confrontado com grandes choques à sua realidade, mas adora assistir a uma boa confusão. Uma boa fofoca é sempre um dos pratos favoritos, principalmente se esta se referir a alguém que conhece pessoalmente ou a uma figura pública. Uma boa rixa também costuma ser um bom exemplo de um entretenimento que este aprecia. Até é capaz de meter um bocadinho o bedelho, isto é, se a situação o permitir. A larga escala é facilmente dissuadido a participar em qualquer espécie de "Caça às Bruxas", desde que esta seja devidamente aceite na sua sociedade. Não faz grande questão em saber do que se trata ao certo nem do porquê. E isto claro está, até não deixa de ser algo normal.

Dependendo do seu género, masculino ou feminino, no amor e nas relações que vai mantendo também tem um determinado padrão de comportamento. É monogâmico sem saber muito bem porquê, mas como todos os outros o são também não vê mal nenhum nisso. No caso dos homens pode acontecer com alguma frequência acreditar que uma pequena "mijadela fora do penico" também não faz mal a ninguém. Afinal de contas é um homem, e ser assim é normal. Já ser "corno" isso é que não pode ser de forma alguma! Gosta também de se juntar com os amigos e exibir a sua virilidade no meio atirando umas "boquitas" às meninas que passam e fazendo pelo meio meia dúzia de comentários obscenos, não vá alguém duvidar da sua masculinidade. E não há problema algum com isso, também é perfeitamente normal. No caso das mulheres esta por norma tem tendência a levar mais a sério a questão da fidelidade monogâmica, embora coisa que não falta actualmente são excepções a esta regra. De qualquer forma, também acaba por entender muitas vezes com alguma naturalidade que o sexo oposto seja adultero. Afinal de contas, como já vimos é normal o homem ter tendência a cometer o adultério é consequentemente é normal a mulher ser um pouco tolerante e flexível nesta matéria. Esta na sua "natureza". Lá está, acaba por ser normal.

Ao longo da sua existência vai adoptando vários ídolos e ícones. Um ou dois mantêm-se para a vida inteira e outros vão mudando conforme a sua vida vai avançando e as suas opiniões vão oscilando. Gosta de se identificar com estes e segue quase cegamente as tendências que estes ditam. Não gosta muito de questionar o porquê dos seus "role-models" fazerem o que fazem ou dizerem o que dizem. Não sente grande necessidade de tal. E se passado uns tempos os seus actos e as suas acções ou palavras ditarem o mesmo caminho, ele e os outros encaram isso de forma natural, porque é normal que assim seja.

Outra característica do ser normalmente normalizado é o facto de este ser contra muita coisa e a favor de muitas outras, mas só toma posições firmes quando inserido no meio da multidão. Até lá é capaz de ir resmungando aqui e ali, mas nada de muito vistoso. No entanto quando se vê no meio dos "seus" defende vincadamente a sua posição de ser a favor ou contra isto. Fica também muito contente se o seu lado ganha uma qualquer contenda, pois assim sente-se parte da mudança. Chega quase a considerar-se um pioneiro das suas causas por ter "participado". Mas geralmente fica a sensação que este não entende muito bem aquilo que defende. Nada de muito anormal na realidade.

É também um óptimo crítico de política principalmente quando se trata de isso mesmo: criticar. Por norma gosta especialmente de criticar os políticos e em especial o governo. Há os que não gostam da política nem estão para se chatear com tal coisa, mas também não gostam de perder a oportunidade de lançar uma acha para a fogueira para criticar o mau funcionamento das coisas, mesmo que por norma nem tenha o hábito de votar. É a sua forma de abstenção contra todos esses ladrões corruptos, esse bando de filhos da puta que só sabem enganar o povo. Pode não saber quem são nem o que fizeram até à data, mas como "eles são todos iguais" também prefere nem saber. Depois há os que até vão interagindo porque até percebem qualquer coisa do assunto. Esses lá vão dando as suas opiniões tendo em conta os seus próprios interesses e seguem quem os diz defender nesse momento. E há ainda os que se filiam e seguem a ideologia do seu partido e dos seus políticos tão afincadamente que às vezes parecem tratarem-se de membros de uma claque de futebol. E se a qualquer um dos três fizerem uma pergunta de ordem um pouco mais complexa sobre as suas ideologias políticas nunca sabem muito bem o que dizer ou refugiam-se num qualquer cliché para escapar à pergunta. E como até é algo de normal ninguém está para se chatear muito, por isso até passa...

O ser normalmente normalizado é todo ele um adepto do entretenimento. Gosta de futebol e/ou das novelas, das séries da televisivas da moda, gosta dos concursos e tem actualmente uma especial apetência para os reality shows e os concursos que envolvem misturar pessoas com situações ridículas e estapafúrdias. Gosta também muito da internet e se ainda for relativamente jovem é adepto dos chats e das redes sociais, pois são óptimas para o engate ou só para o "flirting". Não vive igualmente sem o seu telemóvel e desenvolve rapidamente um qualquer fascínio pelas mensagens escritas, sendo capaz de tratar de qualquer assunto por sms, seja combinar um simples café com um amigo, dar uma má notícia a alguém e até já há os que conseguem manter acesas discussões só por mensagem escrita! No geral a tecnologia e todo o tipo de "gadget" despertam a sua atenção e consequente cobiça. E isto para ele, é naturalmente a evolução das coisas.

No meio disto tudo, o ser normalmente normalizado na realidade não vive, vai antes vivendo como pode ou sobrevivendo. Não faz nada em concreto, mas vai fazendo aqui e ali uma coisita qualquer. Nunca chega a ter qualquer tipo de grande importância em nada porque também nunca se apercebeu em que é que a sua presença poderia de facto ser determinante. Não marca a sua passagem em lado nenhum para a sua posterioridade, apenas deixa um leve rasto que rapidamente se evapora. E a realidade, é que esta é que parece cada vez mais ser a ordem natural das coisas da espécie dominante. Ser-se e viver-se assim é que é normal. Isto é o que cada vez mais parece que a sociedade nos quer dizer ser o nosso ideal. Assim sendo:

Anormais procuram-se!